O PODER DO RÁDIO EM DESCREVER SITUAÇÕES TORNANDO O QUE É FICÇÃO EM REALIDADE
por Diogo Figueiredo
Em 30 de outubro de 1938 uma façanha jamais vista, ou pelo menos ouvida, tiraria o sossego de milhares americanos instalando o pânico nas quatro cantos do país. Tratava-se de uma invasão de alienígenas vindos de Marte que tinham a missão de destruir a Terra. Porém, apesar dos norte-americanos acreditarem firmemente que a Terra estava sendo invadida por marcianos, tudo não passava de uma programação especial de Rádio carregada de extrema convicção e ficção, que tornou real tudo aquilo que era irreal, levando as mentes das pessoas ao um mundo de ilusão através da imaginação.
Tal feito deve-se à Orson Welles, que adaptou o filme “Guerra dos Mundos”, de Steven Spielberg, para o rádio. Welles conseguiu elaborar um roteiro convincente e de alta criatividade descrevendo toda a narrativa através de sons e efeitos. A perfeição foi tão grande que as pessoas que ouviram a peça radiofônica puderam construir em suas mentes todo o cenário horripilante, que por ora, era transmitido via rádio. Muito além de meros truques, a construção de um “cenário acústico” em uma peça radiofônica exige muito criatividade e talento, e isso não faltou a Welles. Ele soube utilizar os recursos de linguagem ideais para descrever através de sons e efeitos todas as imagens do filme. E o melhor, Welles despertou no imaginário dos ouvintes todas as sensações e emoções contidas no filme, transportando-os à lugares e situações onde supostamente estavam ocorrendo os fatos. A construção de imagens sonoras conferiu um impressionante e assustador grau de veracidade a peça radiofônica, marcando assim, a história do Rádio mundial.
Algumas considerações devem ser feitas para analisar tal façanha. Welles soube muito bem descrever as imagens através dos sons utilizando perfeitamente os recursos da palavra texto e linguagem. Com isso, os ouvintes puderam interpretar perfeitamente tudo aquilo que estava sendo transmitido. Outro fator importante é que todo o roteiro foi estruturado de acordo com o contexto social da época, onde pessoas acreditavam realmente que a Terra pudesse ser invadida por marcianos. Tudo isso possibilitou ambientar os ouvintes no cenário fictício onde desenrolava a história
Enfim, a peça radiofônica conseguiu construir todo o universo simbólico em realidade na mente daqueles ouviram a transmissão.
Verifica-se que o sucesso de Orson Welles não se trata de um simples programa de rádio bem sucedido, que despertou a atenção de muitos profissionais da área e encantou o povo norte-americano e o mundo. Se o fato ganhou dimensões tão importantes a ponto de entrar para a história do Rádio mundial como o “marco do impacto das ondas sonoras sobre os ouvintes”, devemos analisar tal feito correlacionando sua projeção diante o contexto social, cultural e econômico da época. Para então identificar o seu real poder de mobilização de massas e entender de que modo o rádio passou a ser utilizado como veículo de aproximação direta à sociedade.
Nos anos 30, países do mundo todo começaram a ser mobilizarem para a chegada da Segunda Guerra Mundial. Governos totalitários perceberam que no momento em que a guerra já soprara no horizonte, era preciso se comunicar com as massas impondo-lhes seus sistemas de governo para convencê-los de tal razão, e assim, disseminarem para o resto do mundo seus ideais políticos. O Rádio tendo desde a sua criação o poder incrível de abranger a massa e difundir informações, logo esses Governos Totalitários não hesitariam de utilizar o veículo como instrumento de disseminação para a propaganda política.
Na Alemanha, Hitler sabendo que era dotado de virtudes em seu discurso, difundiu sua propaganda após analisar o comportamento do povo. Identificou primeiramente os desejos e anseios da sua nação, para assim, instalar os fins a que se propunha. Operou o rádio dando valor a fala, e não a escrita. Seu discurso era carregado de um poder capaz manipular o psicológico das pessoas através da emoção. O recurso da fala é um dom, e o rádio com toda sua capacidade de expansão foi bem utilizado pelo governo Alemão durante a instalação do seu regime.
No Brasil, durante as décadas de 30 e 40, o governo de Getúlio Vargas soube unificar o bom momento vivido na economia com o rádio. O país estava em processo emergente de industrialização, e com o advento da Segunda Guerra Mundial, passou a exportar muitos produtos para outros continentes. Vargas governou o país sob um regime nacionalista e, através de um discurso populista que comovia a massa doutrinando-os para caminhar de acordo com o sistema a que se propunha, instaurou no rádio suas intenções e projetos políticos através de um Estado autoritário que controlava o meio de comunicação e manipulava a informação. Por intermédio do rádio, Vargas expandiu sua propagando política atingindo todas as classes sociais, inclusive os analfabetos. Já no Estado Novo, criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), como o objetivo de mobilizar e manipular a opinião pública. A programação do rádio na época era basicamente de entretenimento, porém o Estado intervinha sempre em horários específicos, além da “Hora do Brasil”. O sucesso de Vargas na utilização do rádio se deve primeiramente na capacidade e única oportunidade real de se comunicar com as massas, pois o veículo era único instrumento existente para tal função. Com isso, o governo soube trabalhar com precisão no imaginário das pessoas, pois o que era divulgado era realmente vivido, dava prazer e mexia com as emoções do povo. Isso explica o sucesso das rádios novelas da época, que atingiram níveis estrondosos de audiência. O êxito de Vargas no rádio deve-se especialmente na identificação correta e precisa dos fatores sociais, econômicos e culturais do Brasil na época.
Se analisarmos parte da história relacionando os acontecimentos históricos com poder de comunicação que rádio dispunha na época, e forma que os governos manipularam e operam sua transmissão, identificamos que para que se alcance o sucesso, estabelecendo uma relação direta com a sociedade é preciso muita pesquisa para compreender o comportamento das massas, ressaltando seus aspectos sociais, políticos e culturais. A partir daí, usa-se alternativas estratégicas de persuasão que operam muito bem no psicológico das massas, e assim, difundem com eficiência os objetivos almejados.
O sucesso de Welles na adaptação de a “Guerra dos Mundos” explica-se se analisarmos o fato sob esta perspectiva. O glamour do rádio deve-se essencialmente na identificação correta daquilo que se pretende passar, para que as pessoas possam assimilar de acordo com o seu grau de capacidade de recepção, o objetivo inserido na informação.
Podemos dizer que rádio deixou de ocupar o espaço de sucesso que possuía por conta do surgimento de novas tecnologias, principalmente as das telecomunicações. A televisão, internet, telefone entre tantos outros produtos resultantes de tal revolução tecnológica começaram a competir com o rádio e logo tiraram-lhe o patamar de sucesso. Isso porque as sociedades evoluíram seus graus de conhecimento e as telecomunicações passaram a preencher com criatividade, qualidade, rapidez e eficiência o gosto popular. A decadência do rádio durante a década de 70 até os dias atuais deve-se a falta de criatividade e imaginação por parte daqueles que operam e ainda operam o rádio. É clara capacidade do rádio em mobilizar as massas, mas para isso, é preciso que o rádio caminhe de acordo com as inovações tecnológicas do momento. Para que o rádio obtenha novamente o prestígio popular que teve no passado, é preciso repensar o presente e o futuro tomando como lição o sucesso do próprio passado. Porém, descartando e extinguindo do tipo inseminação de propósitos e interesses políticos sobre o rádio. Criatividade e imaginação são as fórmulas para que o rádio alcance novamente o patamar de sucesso.
